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Mês das noivas: Resposta do artigo anterior (finalmente)!

Resposta certa: C: Porque Juno, a deusa da mitologia romana protetora dos casamentos e da maternidade, é a deusa que deu nome ao mês.



Por mais incrível que possa parecer, esta é a resposta certa.

Embora as estatísticas apontem que este não é o mês mais procurado pelos casais para o seu enlace matrimonial, ele ainda é considerado mês das noivas porque os japoneses importaram da Europa essa antiga crença de que toda mulher que se casasse no mês consagrado à esposa do poderoso Júpiter teria um casamento feliz.

O engraçado é que esse parece não ter sido o caso da deusa em questão, que sofria constantemente um inferno conjugal toda vez que seu todo-poderoso marido flertava com outras deusas ou escapava do Monte Olimpo para "confraternizar" com as mortais lá embaixo.

O deus safado e sua esposa ciumenta.
Detalhe de uma pintura de James Barry (1741-1806).


As noivas de junho

Por aqui existe a expressão ジューン・ブライド juun buraido (noiva de junho), importada do inglês e usada para se referir às moçoilas que pretendem se casar nesse mês.

Cerimônia de noivado no castelo de Kumamoto.
Foto gentilmente cedida por Satoru.


Na Europa, junho é um dos meses mais aprazíveis, pois o inverno foi embora, os dias são normalmente ensolarados e não muito quentes e as flores exalam seu melhor perfume. Fica fácil entender por que é uma época boa para se casar, não?

Mas junho no Japão é o mês do tsuyu 梅雨 ou estação chuvosa. Também é uma época sem feriados, dificultando a vida de quem gostaria de curtir uma boa lua-de-mel. Isso explica em parte por que motivo muitos casais não desejam juntar suas escovas de dente no sexto mês do ano, embora a princesa Masako e o príncipe Naruhito, talvez para honrar essa tradição importada, tenham se casado no dia 9 de junho de 1993.

De qualquer modo, as opções A e D foram totalmente inventadas por mim, a opção B só vale para a Europa e a opção E, embora não constitua uma inverdade, não é a causa de o mês levar a alcunha, mas consequência disso e das chuvaradas que tiram a vontade de casar de muitos japoneses.

Referência: O artigo escrito em japonês pela senhora Kume Minako no All About.

Dia da Imigração Japonesa no Brasil



18 de junho de 1908, quinta-feira: Esta foi a data em que o navio Kasato Maru (笠戸丸) aportou em terras brasileiras, mais precisamente o porto de Santos. Nele chegaram 781 japoneses (591 homens e 190 mulheres), liderados por Ryu Mizuno. A primeira grande leva de imigrantes do país do sol nascente para o país tropical.

Chegaram ouvindo fogos de artifício. Emocionados, imaginaram que os brasileiros os recebiam calorosamente. Mal sabiam que o foguetório era por causa das festas juninas.

Após terem enfrentado 52 dias de viagem, são obrigados a permanecer dois dias (ou horas, dependendo da fonte consultada) em Santos, até que as autoridades alfandegárias terminem a inspeção do navio. Só então foram liberados para pegar o trem que os levaria a São Paulo.



Do Japão, haviam trazido bandeiras do Brasil confeccionadas em seda, que agitaram alegremente das janelas apinhadas, junto com bandeiras japonesas, indicando sua vontade de abraçarem o novo país, sem no entanto esquecerem de sua pátria, para a qual esperavam retornar um dia, enriquecidos.

Afinal, o Brasil havia sido descrito como a terra onde "se plantando, tudo dá", "um baú de tesouros", um lugar paradisíaco cheio de riquezas brotando do chão, apenas esperando por mãos que as coletassem. Também havia a promessa de que logo poderiam transformar-se em donos de sua própria fazenda, acumulando riquezas para depois retornarem, triunfantes, à terra natal.

No cartaz está escrito: "América do Sul, América do Sul, uma arca de tesouros os aguarda". Elaborado por uma tal de União de Emigração da Província de Miyazaki.


Outro cartaz de propaganda: "Vamos lá, com a família inteira, para a América do Sul!"


A realidade, no entanto, era bem outra... Levados principalmente para plantações de café em grandes fazendas do interior paulista, tiveram de executar tarefas que antes eram conferidas aos escravos, e em muitos casos recebiam tratamento semelhante. Os cafeeiros não cumpriram o pagamento prometido, as condições de vida eram precárias, havia preconceito, barreiras linguísticas... O sonho tornou-se pesadelo.

Trabalhadores reunidos antes da colheita de café.


Depois de seis meses, mais da metade dos imigrantes deixou o trabalho árduo nestas fazendas para tentar a sorte em outros lugares. Voltar para o Japão era impossível; não dispunham de dinheiro.



Mas, seja pela reconhecida tenacidade japonesa, seja pela absoluta falta de opções, estes imigrantes permaneceram no Brasil, prosperaram (a duras penas) e, hoje, constituem a maior comunidade japonesa fora do Japão.

As fontes de referência para a elaboração deste artigo foram:

• Kasato Maru - Navio Negreiro Japonês

• A viagem do Kasato Maru

Nota: As fotos deste artigo não possuem mais copyright (direitos de autor), de acordo com as legislações brasileira e japonesa, devido ao fato de já se terem passado mais de 70 anos desde sua publicação original. Inclusive as duas fotos coloridas dos cartazes, tiradas por mim no Museu da Emigração do Centro de Emigração e Interação Cultural de Kobe.

Daigaku imo - O doce do tubérculo graduado

Uma das iguarias que logo me ganhou a estima e o estômago nestas paragens nipônicas foi a Daigaku imo (大学芋). Traduzida literalmente, significa "tubérculo da universidade". Que tipo de comida seria essa?

Pois trata-se de batata-doce (Ipomoea batatas), que é cortada em palitos grossos (com casca e tudo), cozida, coberta com uma calda de caramelo e salpicada de gergelim preto. Uma verdadeira delícia!

Deveria ter tirado a foto primeiro, antes de comer quase todo o conteúdo da caixinha de plástico, mas não resisti à tentação...


Mas por que será que esse quitute carrega a alcunha de "Tubérculo da Universidade"?

Para sanar minha curiosidade, perguntei ao fazedor da mesma, quando a comprei pela primeira vez de um vendedor ambulante em Yokohama. Muito atencioso, enquanto derramava calda de caramelo em cima da referida batata, ele me disse que o doce tinha esse nome porque quem o havia inventado (ele não sabia quem) começou a vendê-lo na porta de uma faculdade (ele não sabia qual), há muitos anos (ele não sabia quando).

Enquanto saboreava minha Daigaku imo e me melecava toda com a calda de variedade gosmenta, continuei intrigada com a história e decidi perguntar mais tarde (sim, porque teria de frequentar um lavatório primeiro, para eliminar os resquicios da comilança do rosto) a um conhecido meu, justamente professor de universidade.

Essa calda simplesmente escorre pela sua boca! Nham, nham!


Ele não conseguiu me fornecer nomes, mas me deixou com mais histórias e mais dúvidas na cabeça: disse que, logo após a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, houve um período de muita fome e privação, pois grande parte dos campos cultiváveis haviam sido ou destruídos pelos bombardeios incessantes ou abandonados pelos camponeses temerosos dos mesmos. Finda a guerra, já quase não havia sementes para plantar e, em alguns casos, o solo tinha sido afetado de maneira tão brusca (pensem nos níveis de radiação próximos a cidades como Nagasaki ou Hiroshima, por exemplo) que, mesmo cultivado, não produzia nada. Nada, exceto tubérculos...

Essa parte eu achei meio estranha...Se o solo foi afetado pela radiação, não seria de se esperar que os tubérculos também fossem afetados? O narrador da história não soube dizer, e a mim me restou mais uma incógnita.

De qualquer modo, ele continuou: Foi nesse época que os americanos ou sei lá quem (esse professor não soube dizer com certeza) introduziram a batata-doce no arquipélago, porque as tropas aliadas estacionadas no país recém-conquistado * também precisavam comer, certo?

Pois a solanácea oriunda dos Andes deu-se muito bem por aqui e, por um bom tempo, chegou a ser o único tipo de alimento ingerido pelos menos favorecidos pela sorte, já que o arroz havia se tornado artigo raro e caro. E, de tanto comerem e continuarem cultivando a planta, mesmo com a situação econômica melhorando lá pelos idos dos anos 60, os japoneses continuaram prestigiando a convolvulácea que lhes havia salvado da inanição.

A salvação da lavoura...
Foto: Miya. Encontrada na Wikipédia.


- Agora, com licença que já estou atrasado para uma reunião...

Epa! Espera lá! E como é que isso evoluiu para a Daigaku imo?

- Ah, bom, sei lá... Acho que, de tanto comerem a batata, os japoneses acabaram por inventar pratos novos com ela, experimentaram cobri-la com calda... É isso aí, fui!

Mas, mas...

(som de porta se fechando)

E assim terminou, de maneira inconclusiva e abrupta, minha segunda investigação sobre o caso.

Depois de alguns anos sem nenhuma resposta elucidativa e de muitas Daigaku imo que passaram pelo meu aparelho digestivo, mudei-me para a região de Kansai (Quioto, Osaka, Kobe e arredores) e, para minha surpresa, descobri que por aqui eles vendem, sim, a "batata da universidade", mas não com esse nome.

Eles a chamam simplesmente de sutikku poteeto ("stick potato"), ou seja, batata palito. Às vezes lhe conferem um nome mais extenso, como kawa tsuki karikari sutikku poteeto (皮付きカリカリスチックポテート): "batata palito crocante com casca", mas nada que se compare ao charme e ao mistério da batata universitária...

A batata-doce, no entanto, continua uma delícia e a calda, pegajosa como sempre.

Em tempo: imo (芋) possui o significado geral de tubérculo. Se você quer dizer batata, por exemplo, é jagaimo (lê-se "djagaimo"; じゃが芋). Inhame é satoimo (里芋). E batata-doce, o ingrediente principal da Daigaku imo, tem o nome de satsumaimo (薩摩芋), literalmente: "o tubérculo de Satsuma", nome antigo de uma região do Japão que hoje é conhecida como província de Kagoshima.


* Ainda tem o hífen, certo? Se vocês que moram aí no Brasil e em Portugal ainda têm problemas em se ajustar às novas regras da "Nova Ortografia da Língua Portuguesa", imaginem euzinha aqui, ilhada neste arquipélago? Fico mais perdida que cego em tiroteio...

Hina Matsuri - O Festival das Bonecas

3 de março foi Dia das Meninas aqui no Nihon. Nesta ocasião acontece o famoso Festival de Bonecas (em japonês: 雛祭り, Hina Matsuri), um festival que, diferente dos demais, não é celebrado ao ar livre, com fogos, danças ou desfiles, mas dentro de toda casa cuja família tenha uma ou mais filhas.

Não é feriado nacional; apenas um dia em que bonecas especiais, chamadas de Hina-ningyō (雛人形), são dispostas em plataformas em degraus recobertas por um pano vermelho, numa espécie de altar para pedir aos deuses que a(s) menina(s) cresça(m) forte(s) e feliz(es).

Foto: David Wiley. Encontrada no Flickr


Estas plataformas variam em número, de três a sete, dependendo apenas da situação financeira de seus donos (ou seja: quem tem mais grana, compra bonecas mais tchans representando um cortejo inteiro e coloca mais plataformas para exibi-las). Como muitas famílias japonesas vivem em casas pequenas (ou com orçamento apertado), hoje em dia são muito populares versões com apenas o casal imperial, que dispensam as plataformas espaçosas.

Exemplo com três plataformas.
Foto: katorisi, da Wikipedia

A menos que já exista um conjunto dessas bonecas para ser passado de geração a geração, pais ou avós têm de adquiri-las quando nasce uma filha na família, e o primeiro Hina Matsuri dela é chamado de Hatsu zekku (初節句 ou 初節供), Primeiro Festival Sazonal.

Exemplo com sete plataformas. Foto: Wikipedia

As bonecas representam o imperador e a imperatriz, três damas da corte, cinco músicos, dois ministros e três serviçais, todos com vestimentas tradicionais do período Heian (794-1185).

A maioria das famílias monta esse conjunto em meados de fevereiro e o guarda imediatamente após o encerramento do festival, porque existe uma superstição que diz que aquelas que demoram muito para desmontar e guardar as bonecas enfrentarão muitas dificuldades para conseguir casar suas filhas.

Flores de pêssego, que simbolizam um casamento feliz, são elementos decorativos indispensáveis neste festival. As flores incorporam todas as qualidades consideradas como altamente desejáveis em uma mulher (pelo menos, na sociedade japonesa): delicadeza, elegância e serenidade. Ou seja: para que um casamento seja feliz, uma mulher deve ser frágil, preocupar-se com a moda e a etiqueta e jamais, jamais em sua vida sofrer uma crise de TPM...

Nos próximos artigos, vou tentar explicar como são dispostas as bonecas, acessórios e doces em cada uma das plataformas.

Para quem quiser saber mais (e tiver conhecimentos de inglês), as principais fontes de referência utilizadas para escrever este artigo foram:

- O artigo "Hina Matsuri" na Wikipédia em inglês (em português também vale, apesar de o artigo estar mais incompleto);

- About.com:Japanese Language : site muito bom explicando sobre essa tradição. Infelizmente, as ilustrações explicativas sobre a ordem em que aparecem as bonecas está meio confusa (sem falar de alguns desenhos na ordem errada);

- Far Strider : mostra fotos muito interessantes de um santuário na província de Wakayama que exibe milhares de bonecas Hina ningyō, além de Maneki neko (aqueles gatinhos de patinha levantada que são comumente encontrados dentro de muitas lojas como um talismã para atrair fregueses) e muitos outros tipos de bonecos e estátuas;

- Ginkoya : Conta de maneira bem detalhada a história e a evolução desse festival.

Hatsumode

As fotos abaixo foram tiradas em janeiro de 2004 e ilustram minha experiência em fazer um Hatsumode, a primeira visita no ano novo a um santuário xintoísta (embora alguns japoneses também optem por ir a um templo budista). Esta visita é normalmente feita durante os três primeiros dias de janeiro, feriados no Japão.

O local escolhido não poderia ter sido mais grandioso: o santuário de Ise (伊勢神宮 Ise Jingū), situado na cidade de mesmo nome na província de Mie.


View Larger Map

Quem quiser se aventurar a fazer um hatsumode, aconselho sinceramente a procurar um lugar mais sossegado, um daqueles santuários ou templos mais simplesinhos e fora das rotas turísticas. E não ir visitá-lo no primeiro dia do ano. A não ser que seja uma pessoa masoquista e muito, mas muito demófila. Para saber o porquê dessas precauções, basta dar uma olhadinha nestas fotos:

Mar de gente no caminho pro santuário de Ise


Depois de muita espera e vagarosos passos de formiga, finalmente consegui entrar junto com mais outras zilhentas pessoas.


Ainda mergulhada no meio do povaréu, apertei os olhos (e lasquei o zoom da câmera) para avistar o torii que marca o acesso ao santuário. Na foto, ele se encontra bem camuflado pois, em vez de ser pintado de vermelho, como a maioria dos torii que eu conheço, está em seu estado natural, ou seja, trata-se de um imenso tronco de cipreste polido. Isso o torna muito fácil de confundir com os outros troncos de árvores da região, mas com um pouco de fé acho que dá pra distingui-lo aí no canto superior esquerdo...

Esse ponto é o máximo até onde se pode chegar, pois o interior do santuário é território proibido a todos nós, reles mortais. Somente membros da família imperial têm o privilégio de saber o que se encontra do lado de dentro daquelas paredes de madeira. Até mesmo a grande sacerdotisa responsável pelo lugar tem de ser proveniente de um dos ramos dessa família. Isso porque Ise Jingu é o santuário dedicado a Amaterasu, deusa do sol, uma das divindades mais importantes do arquipélago e suposta ancestral do imperador.

Além disso, o local abriga um dos três Tesouros Sagrados do Japão, o Yata no Kagami (八咫鏡, literalmente, "espelho de oito mãos", possivelmente uma referência à largura do objeto). De acordo com a mitologia japonesa, foi este o espelho utilizado pelos deuses para ajudar a atrair e tirar a deusa do sol da caverna onde havia se escondido, chateada pelas ações de seu irmão Susanoo (deus do mar e das tormentas).

Quem quiser saber mais pode visitar a página oficial do santuário, em inglês, bastando clicar aqui.

35 anos da gata sem boca



Novembro já chegou ao fim e eu acabei me esquecendo de mencionar esse ícone da meiguice, da moda e de todas as coisinhas fru-fru que completou 35 anos no dia 1o do dito mês, com direito a muita festa e diversos eventos espalhados pelos quatro cantos do mundo.

Para quem não sabe, essa gatinha atende pelo nome de Kitty White, nasceu em Londres e tem uma irmã gêmea chamada Mimmy. Criada pela designer Ikuko Shimizu em 1974, a felina de lacinho (ou florzinha) na orelha esquerda já virou de tudo, desde enfeites pra cabelo, bolsas, bijuterias até guitarras Fender, carro da Mitsubishi e rifles (oh, my god!)!!

Também já desfilou modelitos elaborados por Karl Lagerfeld, John Galliano (Maison Dior), virou capa (e matéria) da Vogue Nippon e teve seu rosto cravejado de diamantes ou banhado em ouro puro.

Acessórios para celular Hello Kitty Dior. Foto do site Chip Chick


Hard Rock Café em Osaka


E pra quem achava que conseguiria se livrar dessa quadrúpede de bigode se escondendo no banheiro, aqui está a triste realidade:

Papel higiênico nos "sabores" (Hã? Alguém come isso?) melão e morango


Apesar de ser um produto inicialmente voltado para o público feminino infantil, hoje conta com uma legião de fãs entre as mulheres adultas e até mesmo entre os barbados. Já cansei de ver portadores do cromossomo Y exibindo a cara inconfundível da gata branca em acessórios dos mais variados por aqui.

Produtos Hello Kitty nos Estúdios da Universal


Desfile de Halloween


Há lojas oficiais espalhadas por todo o arquipélago e, por causa da fixação que algumas parentas minhas revelaram ter por essa bichana albina, me vi obrigada a frequentar esses locais e até mesmo possuir cartãozinho de pontos, porque os pedidos de compras nunca param.

Fachada de uma das trocentas lojas oficiais da gatinha


Aliás, minha mala veio lotada de vários itens Hello Kitty cuti-cuti do Japão até a terra brasilis. Logo, logo, devo preencher todo aquele bendito cartão de pontos e trocar, adivinhem pelo quê? Óbvio, mais Hello Kitty! É um círculo vicioso no qual me vejo inexoravelmente presa e incapaz de escapar, mas que faz a delícia de minhas primas, sobrinhas e cunhadas, além de engordar os bolsos dos executivos da Sanrio com meu suado dinheirinho.


Mais fotos desse bicho e seus produtos em outros blogs:

. Whorange - um monte de fotos de produtos HK.

. Style List - uma galeria de fotos com mais produtos ainda...

. Hello Kitty Hell - site hilário de um homem que tem de conviver com a hellokittymania da esposa que, para desgraça dele, é vendedora dos produtos da Sanrio.

Kaōs e carimbos

Alguns dias atrás recebi uma encomenda entregue por takkyuubin (宅急便 Serviço de entregas em domicílio). Na hora de assinar o recibo, em vez de pegar a caneta e escrever meu nome, como faria aí no Brasil, corri até a gaveta e saquei o meu mitomein (認印), carimbo de assinatura.

Para receber pacotes do correio ou cartas registradas, dá pra assinar com um carimbo feito de plástico, com apenas o sobrenome escrito, encontrado facilmente em lojas do tipo 1,99 (que no Japão são chamadas de lojas de 100 ienes ou hyaku (y)en, como se diz por aqui). Adoro fazer compras lá!
Foto: Angie. Encontrada na Wikipédia.


Quando vou ao banco e tenho de autenticar algum documento, de novo tenho de sacar um carimbo, desta vez chamado de ginkoin (銀行印, literalmente, carimbo de banco).

Para qualquer procedimento ou registro em que o nome de uma pessoa tenha de ser verificado além de qualquer dúvida, os japoneses usam carimbos especiais, que no geral são chamados de inkan (印鑑) ou ainda hanko (判子: Lê-se "ranco"), mas ganham nomes específicos dependendo de seu propósito, como os já mencionados mitomein e ginkoin.

Quando se trata de algum negócio mais sério, como fechamento de contratos, compra e venda de imóveis ou casamento, o carimbo utilizado contém o nome completo da pessoa de maneira bem estilizada e é chamado de jitsuin (実印).



O jitsuin é um carimbo tão importante que tem de ser registrado oficialmente na prefeitura mais próxima do local onde a pessoa mora. Ao registrá-lo, ganha-se um tipo de carteirinha, que também pode ser requerida junto com o jitsuin na hora de selar algum contrato de negócio ou matrimônio.

Sua confecção normalmente exige um profissional especializado, os materiais utilizados são de melhor qualidade (pedra, âmbar, madeiras nobres...nada de plástico!) e deve ser guardado num lugar absolutamente seguro, como um cofre, ou debaixo de sete chaves, como diz o dito popular.

Exemplos de materiais utilizados na confecção de um jitsuin: Ébano (madeira rara) e ágata (uma variante de quartzo)


Se você tiver a infelicidade de ter o jitsuin roubado ou falsificado, é como se alguém se apossasse de todos os seus documentos de identificação e ganhasse acesso livre e controle sobre toda sua vida como cidadão. Daria uma dor de cabeça danada ter de provar que sua "assinatura" não foi feita por você e que aquela compra de milhões não foi efetivada em seu nome...


Alguns exemplos de estojos para o armazenamento de inkan, em que as almofadinhas de tinta normalmente vêm junto. Alguém aí adivinha qual desses estojos abriga um legítimo jitsuin?


Mas, e quanto a assinaturas de verdade, aquelas feitas de próprio punho? Existem aqui no Japão? Sim, existem, mas como quase tudo que envolve escrita neste canto do globo, ganhou status de obra de arte.

Uma kaō (a palavra normalmente é escrita assim: 花押 e significa, literalmente, "que retém (a forma de) uma flor") é um tipo de assinatura altamente estilizada, marca ou monograma utilizado para expressar não apenas o nome do indivíduo, mas também suas mais profundas aspirações, sonhos e desejos.

Surgiram primeiro na China (em mandarim, fala-se huāyā, mas os caracteres utilizados são os mesmos adotados pelos japoneses) durante a Dinastia Tang, por volta do século VIII.

No Japão, começaram a ser usadas durante o período Heian (foi descoberta uma kaō de um tal de Sakanoue Tsuneyuki [1] datada do ano 933).

Primeiramente, foram usadas apenas por membros da aristocracia (funcionários da corte, nobres e samurais), mas, no final do século XI, pessoas comuns também puderam criar suas próprias kaō(s), embora tivessem de trazer junto o seu nome escrito de maneira simples para serem aceitos como confirmação de negócio.

Diz-se que, ao longo de sua vida, Oda Nobunaga (1534-1582), um célebre senhor feudal (daimyo) do Período Sengoku ("Guerras Civis" ou "Guerras Internas") trocou de kaō dez vezes. Isso porque, à medida que suas ambições mudavam de rumo (e se tornavam mais grandiosas), fazia-se necessária uma assinatura que refletisse essas mudanças. Ou porque, mesmo naquele tempo, já existiam pilantras falsários que se apoderavam de um exemplar de assinatura e o copiavam à perfeição, obrigando o senhor feudal a mudar periodicamente seus rabiscos...

Uma das dez kaō(s) utilizadas por Oda Nobunaga


Além dele, vários outros personagens históricos importantes também criaram sua próprias assinaturas estilizadas. Dentre eles, os ditos "sucessores" de Nobunaga na sua tarefa de unificar o Japão: Toyotomi Hideyoshi [2] e Tokugawa Ieyasu:

Kaō de Toyotomi Hideyoshi

Kaō de Tokugawa Ieyasu


Apesar de seu uso ter caído em declínio após o período Edo (1603-1867), esse estilo de assinatura ainda continua sendo usado por alguns políticos e pessoas famosas.

A leitura e identificação de cada kaō normalmente requer conhecimento especializado; livros inteiros dedicados ao assunto já foram publicados. Muitos desses livros foram escritos por um tal de Mochizuki Kakusen 望月 鶴川 [3], que parece estar se esforçando mesmo para ressuscitar a moda das kaō, mostrando-as como uma refinada obra de arte e, obviamente, lucrando com a administração de cursos para o aprendizado dessa assinatura estilosa.

Fontes de referência:

1) Os artigos "Hanko" e "Kaō na Wikipédia em inglês.
2) A página em português do site oficial da cidade de Ritto (Shiga-ken) sobre "Inkan".
3) A página em japonês sobre "História da Kaō", no site Kakusen Ryu.

Notas explicativas:

[1] Não tenho muita certeza de ter traduzido corretamente o nome desse indivíduo. Será que é Tsuneyuki mesmo? Se alguém puder me ajudar a confirmar (ou não) o primeiro nome desse personagem obscuro da história, fico agradecida: 経行. Nomes próprios são difíceis de ler em kanji até mesmo para os próprios japoneses, que sempre pedem que, logo em cima do nome escrito em caracteres chineses, venha a leitura dos mesmos escrita em um dos silabários mais simples utilizados por eles, hiragana ou katakana. Sem nenhum desses outros alfabetos pra me ajudar, acabei meio que "chutando" o nome do cara... Apenas o sobrenome dele consegui confirmar certinho: 坂上= Sakanoue.

Um adendo: pra quem ainda não sabe ou está lendo este blog pela primeira vez, eu sigo a ordem japonesa na hora de escrever os nomes: sempre o nome da família (sobrenome) vem primeiro, e por último vem o "primeiro" nome do dito cujo.

[2] Não providenciei nenhum link do Toyotomi Hideyoshi para a Wikipédia em português (ou qualquer outra fonte de informações nessa língua) porque considero o artigo de lá como desinformativo, muito mal-escrito e capenga. Se alguém quiser saber mais sobre um dos grandes senhores feudais do Japão, recomendo que compre um livro específico sobre o homem, porque na net não consegui encontrar nada que preste... Aliás, também não coloquei link para o Oda Nobunaga pelo mesmo motivo.

Que desgosto que dá ver nossa bela língua, esta última flor do Lácio, tão inculta, maltratada e pisoteada pelos seus próprios falantes!

[3] A Wikipédia (novamente ela!) traz o nome desse distinto como MochiDuki Kakusen. Dessa vez, não se trata de erro de nenhuma das partes: eu escrevi da maneira como o nome dele seria pronunciado; a Wikipédia optou por escrever da maneira como um teclado japonês transcreveria o nome do cara para alfabeto romano.

Makibishi

Como ainda não consegui deixar o modo ninja do artigo anterior, acabei inclinada a falar um pouco sobre makibishi ou tetsubishi (qualquer um dos dois nomes serve para identificar a mesma coisa).

Foto retirada do site Vila Naruto


Inicialmente, estas pequenas versões inanimadas de ouriços eram apenas bolas de metal com espinhos (o número de extremidades pontiagudas variava de quatro a um monte, recobrindo toda a superfície da esfera), utilizadas pelos shinobi para facilitar sua fuga, retardando o passo de seus perseguidores. Como naquele tempo até mesmo os samurais costumavam usar um tipo de sandália de palha conhecida como zori, entende-se como esses guerreiros eram suscetíveis a qualquer ataque envolvendo seus praticamente desprotegidos pés.

Com a passagem dos anos e um toque a mais de crueldade, os makibishi evoluíram para uma forma mais letal, passando a conter veneno em suas pontas ou simplesmente fezes de animais, na esperança de que o infeliz espetado por essa arma suja contraísse tétano e morresse dentro de poucos dias (carinhas "legais", esses ninjas, hein?).

Encontrei o vídeo abaixo quando estava procurando por um número de mágica. Ele pertence a algum tipo de empresa que produz artigos para apresentações de mágicos ou sessões espíritas de araque, e mostra como eram utilizadas estas armas. Não me perguntem o que makibishi tem a ver com prestidigitadores; os curiosos podem seguir o link que é apresentado ao final do vídeo.



O que essa voz pra lá de falsa tentando imitar uma japonesa falando inglês errado tá tentando dizer é o seguinte:

Makibishi, it is poison! Touch the spikes, you will die…
Makibishi é veneno! Toque os espinhos e você morrerá...

Jelly fish (?) and two leaves crushed, make poison for ninja.
(Veneno de) Água-viva e duas folhas amassadas fazem o veneno ninja.

Makibishi dipped in poison
Makibishi é mergulhado no veneno

Ninja scatter makibishi on path
O ninja espalha makibishi no caminho

Makibishi kill horses, kill samurai
Makibishi mata os cavalos, mata o(s) samurai(s)

Makibishi not kill ninja
Makibishi não mata o(s) ninja(s)

Ninja always knew where makibishi hiding
O(s) ninja(s) sempre sabe(m) onde o makibishi está escondido


No início, até achei que não tinha ouvido direito, pois podia jurar que a "japonesa" falava makAbishi. Mas, visitando a página da tal empresa, vi que os caras tinham escrito o nome errado mesmo. Então, vamos às explicações semânticas:

Makibishi - 撒菱

撒 MAKI: espalhar; soltar; aspergir.
菱 HISHI (lê-se BISHI quando encontra-se ligado a outro kanji, como o segundo elemento do composto): losango; romboedro; planta asiática do gênero Eleocharis dulcis. Losango, por extensão, também significa objeto pontudo, que é o sentido do kanji nesse caso.

Tetsubishi - 徹菱

徹 TETSU: invadir; penetrar.
菱 HISHI (BISHI): com o mesmo significado descrito acima, de alguma coisa pontuda.

E para quem gosta de armas e objetos antigos, achei umas fotos nesse site aqui, em inglês, contando a história de uma família japonesa: Família Hirase.

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